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Como os arquivistas transformam nossa relação com a memória e a informação

Quando você procura um registro de nascimento antigo, um documento administrativo ou uma foto de família digitalizada, você utiliza um trabalho de arquivista sem necessariamente...

Archiviste femme examinant un document historique jauni avec des gants blancs dans une salle d'archives

Quando você procura um registro de nascimento antigo, um documento administrativo ou uma foto de família digitalizada, você está utilizando o trabalho de um arquivista sem necessariamente saber. Esta profissão, muitas vezes associada a velhas caixas empoeiradas, mudou profundamente nos últimos anos. Os arquivistas não se limitam mais a classificar e conservar documentos. Eles redefinem a maneira como acessamos a informação e como a memória coletiva é construída.

Inteligência artificial e arquivos: o que muda concretamente no tratamento dos documentos

Você já tentou decifrar uma carta manuscrita do século XIX? A maioria das pessoas desiste após algumas linhas. É precisamente nesse tipo de tarefa que a inteligência artificial atua nos serviços de arquivos.

Projetos como Himanis, Lectaurep, Ner4Archives ou Simara utilizam o reconhecimento de escrita manuscrita e a extração de entidades nomeadas. Na prática, um algoritmo percorre milhares de páginas manuscritas, propõe uma transcrição, identifica nomes de lugares ou pessoas e, em seguida, indexa tudo. O que levava meses de trabalho humano pode ser tratado em algumas semanas.

O arquivista não desaparece, seu papel se desloca para a validação e o controle. Ele verifica se a máquina não confundiu um nome próprio, documenta os tratamentos aplicados e identifica possíveis vieses nos resultados. Este trabalho de supervisão exige novas competências, na interseção entre gestão documental e governança de dados.

Para entender melhor as diferentes facetas dessa profissão em plena transformação, uma recurso útil: https://www.lesarchivistes.net/, que apresenta as práticas e os desafios atuais da profissão.

Arquivista masculino trabalhando entre documentos antigos e ferramentas digitais em uma sala de leitura universitária

Governança de dados: o arquivista à montante da cadeia de informação

Frequentemente, imagina-se o arquivista atuando no final da cadeia, quando um documento não é mais útil no dia a dia. Essa imagem está ultrapassada. O arquivista agora intervém desde a criação dos dados, ao lado de juristas, informáticos e responsáveis pela proteção de dados pessoais.

Por que essa mudança? Porque a massa de documentos digitais produzidos a cada dia torna impossível uma triagem a posteriori. É necessário definir, desde o início, quais dados conservar, por quanto tempo, em qual formato e quem pode acessá-los.

Gestão de registros e ciclo de vida do documento eletrônico

A gestão de registros refere-se a essa administração do documento ao longo de sua vida, desde sua criação até sua destruição ou arquivamento definitivo. O arquivista contribui com sua competência em relação a prazos de conservação, rastreabilidade e confidencialidade.

Essa abordagem é particularmente visível nas iniciativas de ciência aberta. Os pesquisadores que compartilham seus dados devem documentar sua origem, suas condições de coleta e seu formato. Sem essa documentação, os dados perdem seu valor científico. O arquivista se torna, então, um elo na confiabilidade da pesquisa.

Regulamento europeu sobre IA: uma nova responsabilidade para os arquivistas

O regulamento europeu sobre inteligência artificial introduz exigências de rastreabilidade que dizem respeito diretamente aos arquivos. Para que uma decisão automatizada possa ser explicada ao longo do tempo, é necessário conservar:

  • Os conjuntos de dados utilizados para treinar o modelo de IA, com sua documentação de origem
  • As versões sucessivas dos modelos, seus parâmetros e suas atualizações
  • Os resultados produzidos e as correções humanas aplicadas

Arquivar os próprios sistemas de IA torna-se uma obrigação regulatória, não apenas uma boa prática. Essa responsabilidade vai muito além da conservação de documentos em papel ou arquivos de escritório. Supõe-se entender o funcionamento técnico dos sistemas para saber o que conservar e como garantir a legibilidade desses arquivos em dez ou vinte anos.

Dois arquivistas examinando negativos fotográficos antigos em uma mesa iluminada em um laboratório de conservação

Escassez de competências digitais nos serviços de arquivos

Essa transformação enfrenta um obstáculo concreto. A escassez de competências dificulta a adoção de ferramentas digitais em muitos serviços de arquivos. Formar um arquivista na gestão de bancos de dados, na supervisão de algoritmos ou no quadro jurídico do digital leva tempo e recursos.

As formações iniciais estão evoluindo, mas a disparidade entre as necessidades do campo e os perfis disponíveis permanece acentuada. Um serviço de arquivos departamental ou municipal não possui os mesmos recursos que uma grande instituição nacional para recrutar perfis híbridos.

O que isso muda para o público

Para os usuários, a consequência é direta. Um fundo digitalizado, mas mal indexado, permanece inencontrável. Um portal de arquivos online mal estruturado desestimula a pesquisa. A qualidade do acesso à memória depende do investimento nas competências arquivísticas.

Concretamente, quando um serviço conta com pessoal treinado em digital, os resultados são visíveis:

  • Instrumentos de pesquisa online mais precisos, com filtros por período, local ou tipo de documento
  • Fundos fotográficos e sonoros tornados acessíveis por meio de transcrição automática e descrição padronizada
  • Uma contextualização dos documentos que permite ao público entender o que está consultando, não apenas baixá-lo

O arquivista que domina essas ferramentas transforma um estoque de arquivos em patrimônio consultável. Sem essa mediação, a digitalização sozinha não produz uma memória organizada.

A profissão de arquivista mudou de escopo sem mudar de finalidade. Organizar a informação para que ela permaneça confiável, acessível e compreensível ao longo do tempo continua sendo o fio condutor. O que difere é a escala, a tecnicidade e o lugar que esses profissionais ocupam na governança da informação, muito antes de os documentos chegarem a um depósito de arquivos.

Como os arquivistas transformam nossa relação com a memória e a informação